Flávio Batista analisa os principais assuntos relacionados aos Jogos de Londres
Nem sei direito como começar este último texto da coluna Papo de Olimpíada. Enquanto escrevo essas linhas, ainda me recupero da emoção de ter visto uma pernambucana ter todo o seu trabalho coroado na Olimpíada de Londres. A imagem de Yane Marques cruzando a linha de chegada da última prova do pentatlo moderno na terceira colocação é uma daquelas que irá comigo para o resto da vida. Um bronze que premia todo o esforço e dedicação da filha de Afogados da Ingazeira, cidade distante 380 quilômetros do Recife, que na competição de ontem mostrou o porquê do escritor Euclides da Cunha ter denominado, magistralmente, que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. No caso da pernambucana, força para lutar esgrima, nadar 200 metros em uma piscina, montar um cavalo para saltar obstáculos e, no fim de tudo, intercalar três quilômetros de corrida com três sequências de tiros. Tudo no mesmo dia.
Fora da competição, a força é para levantar cedinho, antes do sol nascer, para encarar horas e horas de treinamentos em cinco modalidades completamente diferentes, além de ter que lidar com a saudade do convívio familiar, já que a casa, nos últimos meses, tem sido o mundo. Família, aliás, que sempre esteve ao seu lado em todos os momentos. Quem não se lembra, por exemplo, do esforço da mãe da atleta, Goretti, que teve de dobrar o trabalho na produção de doces e salgados para acompanhar a filha, in loco, nos Jogos Pan-Americanos do Rio-2007 e na Olimpíada de Pequim-2008? Força de vontade, força braçal, força da fé... Força! Trajetória que só coloca mais brilho na histórica medalha de ontem, a primeira do pentatlo moderno do Brasil (justamente quando a modalidade completa 100 anos de presença nos Jogos Olímpicos) e de um pernambucano em esportes individuais na competição. Um feito que, tomara, sirva como um marco para a mudança na forma de tratar o esporte aqui no Estado.
Quando Yane terminou sua prova ontem, exausta, e desabou após a linha de chegada, me passou um filme na cabeça. Lembrei da terra batida, em Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife (RMR), onde surgiu Keila Costa. Lá, muitos treinavam com os pés descalços, pois não tinham um tênis para usar. Recordei também de garotos e garotas, em Camaragibe, que arremessavam cabos de vassouras como se fossem dardos do atletismo. Exemplos, como muitos outros, que, às vezes, nos fazem ficar desanimados em relação a um Brasil olímpico e de ver como o esporte não recebe a devida atenção por aqui. Todos esses que batalham diariamente, e arduamente, pelo esporte pernambucano, tenho a certeza, se sentiram recompensados ao ver Yane Marques no pódio, cuja conquista se deve ao esforço pessoal e a quem a ajudou nesta trajetória.
Apesar de todas as adversidades, uma medalhista olímpica formada no Recife. Aliás, o roteiro desta Olimpíada reservou papeis de destaques para duas nordestinas. Primeiro, a piauiense Sarah Menezes, que abriu os caminhos em Londres com uma inesquecível medalha de ouro no judô. Já o desfecho coube à pernambucana Yane Marques, um bronze conquistado com muita dramaticidade na última disputa do evento.
Entre elas, uma campanha que foi a melhor do Brasil em número de medalhas em Olimpíadas: 17 ao todo, superando os 15 pódios de Atlanta-1996 e de Pequim-2008. Poderia ter sido melhor, principalmente porque, tradicionalmente, o País que vai receber a próxima edição dos Jogos já consegue melhorar bastante o seu desempenho quatro anos antes. No entanto, ainda não estamos num patamar de cobrar em demasia nossos atletas. A contagem regressiva para o Rio-2016 já começou. Que os dirigentes não esqueçam que as grandes estrelas do espetáculo são os atletas e eles merecem, sempre, total respeito e apoio. Agora, após oito meses, me despeço de vocês aqui neste espaço. A pira olímpica foi apagada ontem em Londres. Mas a vivência do esporte é diária e não apenas de quatro em quatro anos. Que assim seja!