Murilo Guimarães é experiente enófilo e trata do universo do vinho de todo o mundo.
Essa frase é classicamente atribuída ao Dom Pierre Pérignon, monge beneditino que habitou a Champagne, no século XVII. Quando lá se produziam prioritariamente tintos tranquilos (não borbulhantes). A história relata suas importantes contribuições à vinicultura local: a seleção criteriosa das uvas, da colheita, das safras, a prensagem rápida (sem esmagar as cascas), a mescla dos diferentes vinhedos e a troca das feias rolhas de pano embebido em óleo por cera de abelha. Consta ainda que ele importou um processo de vinificação de vinhos efervescentes que aprendera em Limoux e, ao acaso, quando muitas garrafas explodiam, devido à segunda fermentação que ocorria pela elevação da temperatura na primavera, descobriu o método champenoise. Produzindo assim o primeiro champanhe. E ao ver as borbulhas, exclamou: “estou bebendo estrelas”.
Romântico como a própria bebida, não? Mas há sempre “espíritos de porco” na história! Que tentam derrubar esse mito e informar que o espumante, desenvolvido pelo médico e cientista inglês Christopher Merret, só ficou célebre em Champagne no século XIX. Pior, que a frase que titula este artigo foi criada para uma propaganda no fim daquele século. Para que serve esse tipo de gente que desfaz nossas mais charmosas fantasias, hein? Estou com Dom Pérignon e não abro. Por isso fui homenageá-lo, visitando a charmosa vila de Hautvillers, em cuja abadia o monge ocupou o cargo vitalício de chefe da adega. Obrigado, meu Dom!
Lá juntinho fica Épernay, onde se localizam muitas das grandes vinícolas produtoras da bebida, ao redor da famosa Avenue de Champagne. Segundo os residentes, a avenida mais cara do mundo, pois embaixo dela há milhões de garrafas do espumante, que dormem nos 100 km (é isso mesmo!) de túneis das adegas. A grande maioria da LVMH (grupo Louis Vuitton, Moët e Hennessy), que se autointitula o líder mundial do luxo e detém o controle das casas de champanhe Mercier, Ruinart, Krug, Veuve Clicquot, Moët & Chandon e Dom Pérignon. Pense na dúvida do proprietário: o que é que eu bebo hoje? Visitamos a Moët & Chandon, com suas belas e luxuosas dependências e, ao final, degustamos seus excelentes champanhes vintage. Recomendo. Claro!
Não se pode esquecer Reims, principal cidade da região e sua lindíssima catedral, onde foram coroados todos os reis da França, desde o batismo de Clovis, no século V. Lá visitamos a bonita Pommery. Quando for a Champagne - vá! - escolha outra estação, pois no inverno muitas casas fecham ou reduzem seus horários de excursão. Nada muito grave, porém, já que beber uma flûte de champanhe é bom em todo lugar. Sempre. Tim, tim, brinde à vida.
Com a palavra, o Ibravin
Orestes de Andrade, responsável pelo excelente trabalho de divulgação dos nossos vinhos no País e no exterior, após ler meu artigo criticando uma pretensa política fiscal e comercial brasileira quanto aos importados, pediu para informar que as entidades do vinho nacional não solicitaram aumento de impostos dos produtos estrangeiros, apenas a instituição da salvaguarda - para mim, sinônimo de uma equivocada e anacrônica política de reserva de mercado. Faltando dizer, como foi amplamente divulgado nas mídias nacional e estrangeira (basta consultar o Google), que parlamentares e funcionários do Governo Federal defenderam o aumento de impostos para os vinhos importados, estranhamente em desalinho com o propagado pensamento dos produtores brasileiros.
Esclareça todas as suas dúvidas sobre bebidas. As perguntas são respondidas todo sábado nesta seção, através do seguinte e-mail: murilob guimaraes@gmail.com